Um cidadão do Mundo
POR vezes, quando menos esperamos cruzam-se connosco pessoas surpreendentes.
É questão de estarmos receptivos…
Almoçava nas TT, como muitas vezes quando a falta de tempo não permite que os sapatos me levem para paragens mais distantes.
Não me importo de almoçar sozinha.
Observo as caras e principalmente os olhos de quem passa.
Procuro emoções.
Estava eu num desses almoços quando alguém à minha frente me pergunta, em espanhol, se podia sentar-se na mesa vaga ao meu lado.
Claro.
Pousou o tabuleiro, sentou-se.
Rezou, benzendo-se.
Acto há muito afastado do nosso quotidiano. Principalmente na cidade e quando o sujeito da acção é um individuo visivelmente novo!
“Estes espanhóis…” pensei sem qualquer sentido crítico. Apenas espanto (e confesso até alguma simpatia).
Virando-se para mim e para o sujeito sentado na mesa à sua direita, o nuestro Hermano, com a naturalidade de quem recomeça um conversa interrompida com velhos conhecidos, perguntou qual era a forma mais fácil de chegar ao aeroporto.
O meu conterrâneo, no seu fato cinzento, fingiu nada ter ouvido e continuou na sua vida.
Respondi-lhe.
A partir dali a conversa fluiu naturalmente.
Era mexicano (arruivado e alto, nunca o imaginaria). Ao habitual “trabajo ou vacaciones” respondeu- me que era um misto.
Na brincadeira disse-lhe que estando tão longe de casa, tinha faltado às eleições…
Sorriu e respondeu que ainda assim achava que tinha ganho quem devia ganhar.
Apresentou-se e quis saber como me chamava e o que fazia.
Seminarista, tinha passado os últimos anos em Roma e voltava agora a casa, na Cidade do México.
Não podia no entanto partir sem passar por Fátima.
Por isso estava agora aqui. Tinha vindo passear a Lisboa, pela baixa, pelas capelinhas, antes de partir.
Engenheiro industrial de formação, a vocação tinha-lhe chegado naturalmente.
Trabalhava numa fábrica do Grupo Domecq, na Cidade do México.
Tinha umas centenas de pessoas a seu cargo.
Quando percebeu que não era nada daquilo que queria.
“Mudança radical!” comento.
“A profissão é só uma profissão. A vida é muito mais do que isso. É aí que se jogam as vocações e as convicções”, diz-me, com a certeza de quem encontrou o seu caminho espelhada no olhar.
“No plano da evolução pessoal a minha mudança foi perfeitamente natural”, continuou.
“Confesso que de início o não ter dinheiro, não ter que fazer planos, ter casa, ou carro, me confundiu. Depois percebi que aquilo de que eu realmente preciso, a cada momento, Deus providencia. E não tenhas dúvidas de que providencia mesmo. Precisamos de muito pouco”.
A resposta dele podia-nos ter levado a muitas conversas. Acho no entanto que ambos sabíamos que não teríamos tempo para isso.
Seguia para Espanha, a caminho de Valência. Ao que parece o Papa estará lá dia 10 e ele estará lá também.
A conversa tornou-se saltitante.
Impressões sobre Lisboa, Roma, Cidade do México, Santiago, onde chegou como peregrino depois de uma longa caminhada. Falou-me do que tem sido a sua experiência no terreno para onde a certeza das convicções o tem levado.
A hora do almoço passou em corrida.
Com pena, disse-lhe que tinha de voltar para a “trincheira.”
Despedimo-nos com um aperto de mão. Eu desejando-lhe felicidades, ele agarrando a minha mão nas suas, agradecendo a companhia e abençoando-me (acto provavelmente mecânico, atenta a vocação).
Muitas vezes ao almoçar sozinha me pergunto que histórias terão para contar os que se sentam ao meu lado.
Um mexicano seminarista com uma mochila de ideais…”not in my wildest dreams”!
A vida é uma viagem.
Neste dia, por instantes, os nossos caminhos confluíram para uma mesa, num centro comercial igual a tantos outros na cidade.
Admirei-lhe o brilhozinho no olhar, a convicção e a capacidade de abdicação. A serenidade de quem encontrou o seu caminho.
Felicidades Padre E.!
É questão de estarmos receptivos…
Almoçava nas TT, como muitas vezes quando a falta de tempo não permite que os sapatos me levem para paragens mais distantes.
Não me importo de almoçar sozinha.
Observo as caras e principalmente os olhos de quem passa.
Procuro emoções.
Estava eu num desses almoços quando alguém à minha frente me pergunta, em espanhol, se podia sentar-se na mesa vaga ao meu lado.
Claro.
Pousou o tabuleiro, sentou-se.
Rezou, benzendo-se.
Acto há muito afastado do nosso quotidiano. Principalmente na cidade e quando o sujeito da acção é um individuo visivelmente novo!
“Estes espanhóis…” pensei sem qualquer sentido crítico. Apenas espanto (e confesso até alguma simpatia).
Virando-se para mim e para o sujeito sentado na mesa à sua direita, o nuestro Hermano, com a naturalidade de quem recomeça um conversa interrompida com velhos conhecidos, perguntou qual era a forma mais fácil de chegar ao aeroporto.
O meu conterrâneo, no seu fato cinzento, fingiu nada ter ouvido e continuou na sua vida.
Respondi-lhe.
A partir dali a conversa fluiu naturalmente.
Era mexicano (arruivado e alto, nunca o imaginaria). Ao habitual “trabajo ou vacaciones” respondeu- me que era um misto.
Na brincadeira disse-lhe que estando tão longe de casa, tinha faltado às eleições…
Sorriu e respondeu que ainda assim achava que tinha ganho quem devia ganhar.
Apresentou-se e quis saber como me chamava e o que fazia.
Seminarista, tinha passado os últimos anos em Roma e voltava agora a casa, na Cidade do México.
Não podia no entanto partir sem passar por Fátima.
Por isso estava agora aqui. Tinha vindo passear a Lisboa, pela baixa, pelas capelinhas, antes de partir.
Engenheiro industrial de formação, a vocação tinha-lhe chegado naturalmente.
Trabalhava numa fábrica do Grupo Domecq, na Cidade do México.
Tinha umas centenas de pessoas a seu cargo.
Quando percebeu que não era nada daquilo que queria.
“Mudança radical!” comento.
“A profissão é só uma profissão. A vida é muito mais do que isso. É aí que se jogam as vocações e as convicções”, diz-me, com a certeza de quem encontrou o seu caminho espelhada no olhar.
“No plano da evolução pessoal a minha mudança foi perfeitamente natural”, continuou.
“Confesso que de início o não ter dinheiro, não ter que fazer planos, ter casa, ou carro, me confundiu. Depois percebi que aquilo de que eu realmente preciso, a cada momento, Deus providencia. E não tenhas dúvidas de que providencia mesmo. Precisamos de muito pouco”.
A resposta dele podia-nos ter levado a muitas conversas. Acho no entanto que ambos sabíamos que não teríamos tempo para isso.
Seguia para Espanha, a caminho de Valência. Ao que parece o Papa estará lá dia 10 e ele estará lá também.
A conversa tornou-se saltitante.
Impressões sobre Lisboa, Roma, Cidade do México, Santiago, onde chegou como peregrino depois de uma longa caminhada. Falou-me do que tem sido a sua experiência no terreno para onde a certeza das convicções o tem levado.
A hora do almoço passou em corrida.
Com pena, disse-lhe que tinha de voltar para a “trincheira.”
Despedimo-nos com um aperto de mão. Eu desejando-lhe felicidades, ele agarrando a minha mão nas suas, agradecendo a companhia e abençoando-me (acto provavelmente mecânico, atenta a vocação).
Muitas vezes ao almoçar sozinha me pergunto que histórias terão para contar os que se sentam ao meu lado.
Um mexicano seminarista com uma mochila de ideais…”not in my wildest dreams”!
A vida é uma viagem.
Neste dia, por instantes, os nossos caminhos confluíram para uma mesa, num centro comercial igual a tantos outros na cidade.
Admirei-lhe o brilhozinho no olhar, a convicção e a capacidade de abdicação. A serenidade de quem encontrou o seu caminho.
Felicidades Padre E.!

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