
De início parecia um mail igual a tantos outros.
Da Guiné alguém pedia ajuda.
O amigo que o encaminhou tinha-lhe no entanto acrescentado um parágrafo:
“Pessoal a Esperança* que está no terreno é minha amiga e de inteira confiança. O tempo de permanência dela em Africa está a terminar e está por isso em contra-relógio para ajudar esta criança. Contribuam com o que puderem, qualquer quantia é bem-vinda”.
A amiga no terreno não trabalha para nenhuma organização humanitária, para nenhuma ONG.
Em vésperas do seu regresso uma mãe desesperada tinha-lhe, literalmente, batido à porta pedindo ajuda para salvar o filho. O pequenito precisava de ser operado.
Com um problema cardíaco diagnosticado e perante a impossibilidade de realização da operação na Guiné por falta de recursos, a única esperança de sobrevivência residia numa vinda a Portugal.
E a Esperança estava ali.
Abriu-lhe a porta e o coração.
Encaminhei o pedido para alguns colegas e amigos. Acrescentei-lhe um parágrafo.
“Meus amigos, este pedido chegou-me por um amigo de longa data. Se quiserem ajudar, para vos poupar trabalho (e se me têm em boa conta!), não me importo de depositar o nosso contributo em nome de todos. Só têm que me fazer chegar as vossas contribuições até amanhã à tarde, uma vez que estamos em contra-relógio. Naturalmente apresentar-vos-ei a prova de que o dinheiro foi parar a quem de direito!”.
Não passaram 10 minutos… e os contributos começaram a chegar.
Em menos de um fósforo tínhamos uma quantiazinha simpática.
“Avisa a Esperança de que vão entrar na conta X euros. Não é muito, para aquilo que ela deve precisar mas é um empurrãozinho”, disse ao meu amigo.
Ele ficou entusiasmado e espantado. Queria dar à amiga o meu contacto, queria que nos conhecêssemos. Ia contar-lhe o que tinha acontecido.
Não tinha abdicado de nada para ajudar este pequenino que não conheço.
Não me tinha afastado um metro do meu trajecto.
Tinha canalizado as contribuições do conforto da minha vida.
E o mesmo, estou segura, tinha acontecido com todas as pessoas que a mim se juntaram.
A euforia do meu amigo, por um acto tão pequeno, mostrava-me como nos tornamos indiferentes ao sofrimento dos outros.Fiquei constrangida.
Muito mesmo.
No mínimo, a minha atitude não devia ser a excepção mas a regra.
“A Esperança não precisa de saber como foi, só tem que saber que o dinheiro entrou. Agora, assim que souberes o que se passou, por favor conta!”
Pouco tempo depois soubemos que o nosso amiguinho Guineense já estava em Portugal. Tinha feito os exames que era suposto fazer e seria operado dentro de um mês.À partida, a operação não traria surpresas. Correria tudo bem.
Pelas minhas contas ou já foi operado, ou está a sê-lo por estes dias.
Para diminuir os custos durante a sua estadia em Portugal a Esperança tinha hospedado a mãe do menino em sua casa. Pelo tempo que fosse necessário.
Com o dinheiro que angariou trouxe ainda outro menino também ele a precisar de uma intervenção cirúrgica.
Fiquei com uma admiração profunda por esta miúda que não conheço.
Sei o que fez e pergunto-me se nas mesmas condições teria tido a coragem que ela teve.
Sei o que fez e respondo que se estivesse do “outro lado” gostaria que houvessem mais Esperanças.
Este argumento devia ser suficiente.
Sei o que fiz e penso que tenho de combater o meu egoísmo.
*Sim. Rebaptizei a heroína. Coisas do anonimato!